... e, quando chegar ao fim deste caminho, abrirei as minhas asas renovadas de ave livre dos grilhões de um destino miserável e planarei sobre este Tejo, que, paciente, me tem escutado os lamentos das mil penas arrependidas...


Entre o céu e o mar, só a beleza do poema a colorir a linha do horizonte...


Na falta do poema
Fica o curioso registo
Do estranho caso do pinheiro
Que por via de tanto querer
Ver e ser visto
Resolveu crescer altaneiro
Ou, quiçá
Seja só um pequeno capricho
Da sua mãe Natureza!


A beleza das coisas pode estar na simplicidade de um instante. Na magia de um abraço inocente e puro de uma criança, onde a ternura se funde com a felicidade que se espelha no seu olhar meigo. Talvez nem se aperceba da emoção que nos devolve e envolve...


Dizem que ao crepúsculo, o rio tem mais encanto.
Se porventura perguntarem ao barqueiro, por certo que ele o não negará...


Hoje apetece-me sair das margens.
Rasurar a folha...
Quero, só  porque quero!...
Desafiar o que os outros acham certo, questionar o porquê de tudo isso, e no fim, reservar-me ao direito de ser diferente.
Hoje apetece-me.  E pronto!


Para o bem da humanidade, e até, a salvação de si mesmo, toda a gente deveria ter um deserto para atravessar... pelo menos, uma vez na vida.


Quando o nevoeiro se dissipar e deixar a descoberto o rio onde nadam os teus olhos, prometo que estarei na margem, à espera do teu regresso...


As palavras são as teias que nos prenderam e envolveram numa espécie de baloiço em suspenso, no vácuo das nossas vidas. Com elas criámos os laços com que nos abraçamos. É às palavras que devemos a razão da nossa história, a mesma que hoje, passados alguns anos, celebramos sem as grandes euforias do início, mas com a serenidade que ganhamos ao longo do tempo e que se traduz na ternura de um sentimento maduro.Sem elas, não saberíamos das nossas existências nem as mesmas se teriam cruzado naquele dia. E, mais importante do que tudo, jamais teríamos provado o sabor que tem um novo sentido da vida. A vida que partilhamos lado a lado, ainda que a distância nos separe no dia a dia...



Pouco importa
O que fui
O que sou
Ou o que porventura
Venha a ser
Se o que sinto
Em certos momentos
É uma falta
Um vazio
Uma solidão sem fim...


A serenidade de um fim de dia, pincelado com as belas cores do crepúsculo, inundando de magia um simples momento que nos fica na retina...



De vez em quando, chegava uma encomenda vinda de Lisboa. Os olhos brilhavam e no peito crescia uma frenética vontade de a abrir e descobrir o que vinha lá dentro. Normalmente eram frasquinhos
pequeninos de perfume, caixinhas redondas com um pó avermelhado, colares e outras quinquilharias com cheiro de cidade.
Mas daquela vez, lá no fundo de tudo, estava uma boneca lindíssima de cabelos cor de ferrugem e olhos verdes. O que senti, foi um misto de emoções indizíveis. Lembro-me que naquele dia, o meu corpo foi pequeno demais para mim, visto que quase não me cabia... de tamanho
contentamento!

Este texto foi escrito para o concurso "imagens da nossa memória, do site EscritArtes. (Só eram permitidos 600 caracteres).


São imagens esbatidas, meio apagadas,
como aquelas fotografias antigas e
enclausuradas em molduras de metal como
se fossem grades de uma prisão perpétua.
Ainda assim, conseguem manter a pose
permanecendo orgulhosamente silenciosas
e indiferentes ao relógio de pêndulo que
as fita num desdém insolente lá do canto
oposto da sala e cujos ponteiros há muito
que passaram a rodar no sentido contrário,
marcando as horas que já foram... são
rostos calados, com sorrisos forçados pela
urgência do momento, segurando
insistentemente um instante que as havia
de suspender no tempo, devolvendo-as à
posteridade



Deveria ser Dezembro, não sei ao certo. Mal pus o pé na rua o meu rosto encheu-se de espanto... nunca tal tinha visto! A rua estava toda vestida de branco, parecia que alguém a tinha polvilhado de açúcar. Tinha nevado na minha aldeia, coisa rara de se ver por aquelas bandas, pois que nos meus quatro anos de vida era a primeira vez que acontecia tamanha fortuna para deleite dos meus pequenos olhos tomados pelo encanto daquele instante tão emocionante e belo, que guardo até hoje na prateleira mais valiosa da minha memória.